sábado, 15 de fevereiro de 2014

SOBRE OS ESPÍRITOS E O LIMBO

Uma amiga me relatou a pressão que recebeu para aceitar a doutrina espírita. Como sempre o tom de ameaça comum nessa gente cheia de amor pelo próximo: "É que precisamos completar nossa missão aqui, você é um espirito sábio... Mas se não abrir pra espiritualidade corre o risco de ir para o limbo, ou pior, ficar perdida vagando como outros espíritos que não encontraram a luz e não aceitam a morte."

A despeito do conceito de morte não adequar-se a um espírito e supor que um espírito, na condição de vagante, não perceba sua própria situação, a coisa me parece outra. Soma-se a isso o papo de "missão". Ora, quem seria tão idiota para mandar alguém pra cá para passar a vida procurando sua missão? Esses tais, perdidos sabe-se lá por onde, suponho, são bem mais interessantes que os ''evoluídos''... Os vagantes são os inconformados, os irrequietos, os ousados, aqueles que estão curtindo a liberdade. Afinal, quer mais liberdade do que vagar sem ter sua existência ameaçada? O que de pior pode acontecer senão simplesmente apagar-se? Espírito sentiria dor? Solidão? Há algum muro que impeça de ir onde quer? E se está vagando e não acha ruim onde estaria o problema? Em achando ruim toma outro rumo.

Contudo, os dessa doutrina, que creem que é ruim vagar e tornaram a evolução um fim em si mesma, têm uma necessidade existencial para a vida terrena, a missão, refletindo na outra. Evolui-se aqui para ser evoluído lá. A conta não fecha: ou vivemos num modo terreno ou vivemos num modo espiritual. No máximo, me parece razoável, que o de lá faça alguma diferença aqui e não o contrário. Se bem que pensar é coisa um tanto difícil para seres evoluídos...

A pergunta que jamais me responderam é "para quê evoluir?". Eu não quero evoluir. Não quero esse compromisso e por não querer serei punido com algo semelhante ao desterro desta vida? Ainda não vi a menor necessidade do processo que dizem passarem os melhores seres espirituais. Baseiam-se em livros de Kardec que, por sua vez, narra as conversas que teve com os evoluídos. Ora, em não havendo a menor garantia de que tenha mesmo falado com espíritos e muito menor garantia de que esses espíritos sejam os evoluídos e ainda menos comprovação de que tenham falado verdades, ter esses pensamentos humanos como absolutos é, no mínimo, temerário. Além disso, limitam o acesso aos médiuns. Coisa de charlatanismo, pois que verdade existencial dependeria de intermediários? E tem as experiências que podem ser perfeitamente autossugestões e até neuropatias.

Enfim, cá estamos no vazio dessa porcaria toda. Qualquer coisa que se diga sobre aquilo, ao qual não temos acesso, encontra guarida nos corações fracos que povoam a Terra.

O que me resta senão abrir uma congregação qualquer, com ares de bondade suprema, e ser seguido por uma multidão?

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