quarta-feira, 17 de novembro de 2010

EFEITO COLATERAL

Não há entre os mamíferos, mais facilmente observáveis, qualquer atitude de culto ou reverência. O único animal que se presta ao culto de entidades não-humanas, ou a postular uma suposta vida não-carnal, é o homem.

Tudo isso nos remete à razão, ou ao ato de pensar. Porque parece natural que a concepção religiosa está ligada ao pensamento mais complexo que nos diferencia de uma besta. De outro extremo podemos observar que doenças degenerativas do cérebro tiram imediatamente a noção de fé. Os acometidos por síndrome de Down, por exemplo, também são incapazes de evoluir nesse campo da crença em “outro mundo”.

Crer parece ser algo aprendido, como quase tudo na vida em sociedade, tanto que as religiões são basicamente produções culturais já que elas estão concentradas em populações bem definidas e a mistura, digamos, se dá pela interatividade intercultural. Cremos somente no que nos foi ensinado no transcorrer da vida. No Brasil nascemos cristãos, por assim dizer. Nada além. Portanto, a espiritualização da existência passa pelo ato de pensar, da informação recebida e não de algo que transcende a isso.

Mais além, sou categórico em afirmar que a fé, o ato de crer, é um subproduto da razão, ou seu efeito colateral. Pensamos, observamos, temos dúvidas, logo temos a necessidade de entender o que se passa à nossa volta. Queremos respostas. Daí surgiram, ao longo dos tempos, conceitos baseados na mais absoluta ignorância (falta de conhecimento).

A ausência de conhecimento da natureza fez supor um mundo sobre-humano (sub-humano também). Dos ventos aos raios, do Sol à Lua, das profundezas das águas às nuvens, o homem se viu amedrontado e vitimado pela obscuridade de simplesmente não entender, principalmente, a morte. Fico a imaginar como era encarada, nos primórdios da humanidade, a simples mudança de vento. Havia a necessidade de um Ser comandando e determinando tudo. Era a lógica possível.

De tal forma estivemos mergulhados nesse mundo paralelo, nos dando certa tranquilidade e certos medos, que está quase somatizado, repassado de geração em geração como verdade indiscutível. Conseguimos tornar nossos devaneios antepassados em conceitos visceralmente fortes no presente o bastante para afirmarmos, “com toda a certeza”, que temos alma, que temos espírito, e que eles são nossa sobrevida. Afinal, são milhares de anos de afirmação: "Tem que haver algo depois!". Mera especulação é o que de fato temos. Assim, hoje acreditam no resultado da falta de informação. Não na informação em si.

Abrir mão de milênios de espiritualização da bios é um esforço tremendo. Contudo, nada muda os fatos, nada muda a realidade da nossa implacável finitude e o silêncio do lado de lá.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

TODOS DISCUTEM GOSTO E DIZEM QUE GOSTO NÃO SE DISCUTE

"Gosto não se discute." Essa frase vem sempre depois de uma discussão sobre gosto. Ainda não vi quem a dissesse antes do assunto começar. Em geral é para fugir da discussão.

De tanto achar uma expressão idiota, não que gosto deva obrigatoriamente ser discutido, mas pela hipocrisia da negação, resolvi arrolar alguns momentos, diríamos, em que se discute e até se impõe gostos.

As mães educam e reprimem seus filhos a partir de seus próprios gostos. É a roupa, o jeito de se portar diante dos demais, hábitos alimentares, não uso de certas palavras, penteado, perfis de amigos... Enfim, muito disso sob a desculpa de boa educação. Em geral as mães, um pouco dos pais também, impõe seus desejos (gostos) e só aceitam discuti-los a partir da pré-adolescência... e como vão discuti-los! Também porque seus filhos vão forçar a discussão.

Há os casos ainda mais discutíveis, que chegam às raias da legislação: desejos sexuais, uso de aparelhos de som, nudez, vícios, uso de drogas lícitas e alimentação. Todos os casos em que chegam ao âmbito da legislação foram discutidos. Gostos foram discutidos no Congresso Nacional ou impostos desde sempre por leis tácitas, socialmente aceitas e que infringem o desejo pessoal. Vamos aos exemplos.

É crime relações sexuais em público, mas há quem pratica com todos os riscos envolvidos e se vê facilmente videos pela internet desse gosto. A pedofilia é o mais abissal dos crimes e é crime porque tem lá seus adeptos. Inimaginável, para quem não gosta, é a necrofilia.

A nudez em público é crime. Porém, foram constituídos os locais reservados a esta prática.

Escutar som alto é um prazer para muitos, tem campeonatos disso, e está limitado às 22 horas, não pode ser perto de hospitais (nem se pode buzinar perto). As casas noturnas têm revestimento acústico e seus clientes adoram os decibéis das músicas.

O cigarro é um gosto e é o mais cerceado dentre os vícios e drogas permitidas. A bebida, muito mais perigosa socialmente, não tem tantas regras.

Na alimentação vemos que se deixarmos nossos filhos por seus gostos vão comer somente biscoitos receados, por exemplo. Existem os que nao conseguem fazer uma refeição sem carne vermelha e sua insanas gordurinhas.

Note que não entrei na moda, até agora. Exatas 100% das mulheres tecem comentários sobre as roupas umas das outras. Discutem gostos desavergonhadamente.

Enfim, todos discutem gostos e eis meu protesto contra uma expressão absolutamente ignorada no cotidiano e que insistem em ficar citando.

Eu discuto gosto sem vergonha!

Os únicos gostos indiscutíveis são os geneticamente determinados como o paladar, por exemplo. Não sabemos porque gostamos de chocolate. E creio que a maioria nem quer saber. Tampouco nossa cor preferida. São arranjos na nossa concepção sobre os quais, suponho, nada podemos fazer.