quarta-feira, 30 de março de 2011

SÃO TOMÉ, O AUTÊNTICO!


Analisemos o caso do discípulo Tomé.

Tomé, eis um cara injustiçado até por Jesus. O sujeito quis ver para crer. E qual o problema nisso? Duvidar é da natureza humana. Faz bem porque nos leva a peneirar as informações. É o primeiro passo para se chegar à verdade. Afinal, mentiras é o que não faltam. O apóstolo Paulo diz aos cristãos de Corinto que devem julgar as profecias. Ora, quem julga parte da dúvida.

Tomé seguiu Jesus em todo o tempo, cria nele, do contrário teria abandonado pelo caminho. Manteve-se no grupo mesmo depois da morte do líder. Ele não foi tão inescrupuloso quanto Pedro que negou descaradamente. Tampouco foi traidor como Judas Iscariotes. Nem disse que a ressurreição de Jesus jamais aconteceria. Vamos aos detalhes do episódio que entrou para a história e rotulou Tomé como exemplo de descrença.

As mulheres foram ao túmulo para despejar perfumes, encontraram o local vazio, anjos à porta e arguíram pelo corpo do Mestre. Não sabiam da promessa de ressurreição que Jesus havia deixado? Foram incrédulas. Maria Madalena chegou a confundir Jesus com o jardineiro. Os apóstolos poderiam bem ter dito: “Calma, ele ressuscitou e logo estará aqui”. Nenhum deles, conforme o texto, lembrou-se da promessa de ressurreição. Note o leitor que Pedro e João correram para o sepulcro para averiguar o que as mulheres falavam. Isso não foi um ato de descrença? Estavam atrás de provas!

Note este trecho: "Então entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu" (João 20:8). Esse tal primeiro viu e depois creu!

Ainda mais acintosa é a atitude da própria mãe de Jesus: "E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro. E viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Ela lhes disse: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram" (João 20:11-13).

Tomé não negou a possibilidade da ressurreição, apenas queria ter certeza que o homem que diziam ter aparecido era de fato o Mestre. Ainda mais diante de tanta incredulidade como nos textos citados acima. Ou você acredita em tudo que te dizem? O rapaz teve um momento de cautela e passou a ser conhecido como incrédulo.

No verso nove do capítulo 20 do evangelho de João diz que eles agiram assim “porque ainda não entendiam a escritura, que era necessário que ressurgisse dentre os mortos”. Se não entendiam, por que exigir isso de Tomé? Pois bem, se há uma apelação ao entendimento estamos diante da razão. Eis que a fé não seria algo indefinido ou supostamente o único caminho. O próprio texto fala da necessidade da captação via raciocínio! Ninguém crê senão pela razão que pode ser um raciocínio profundo, superficial, parcial ou manipulado. O texto, no mínimo, isenta Tomé por completo ao falar na terceira pessoa do plural.

O povo tem sua atenção para uma parte da história. É recorrente vermos discursos inflamados sobre a incredulidade de Tomé e de como devemos crer em Jesus etc. Ora, parto para outro lado para mostrar que há mais nisso que a vã filosofia dos púlpitos demonstra. Jesus quis ser tocado e isso é o ápice. João 20.27 diz “Chega aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; chega a tua mão, e mete-a no meu lado; e não sejas mais incrédulo, mas crente”. Isso dá margem para eu também querer tocá-lo. Ora, por que não poderia tocar como Tomé teve oportunidade? Diriam alguns que isso não é possível já que Jesus foi assunto aos céus. E digo que nem isso seria problema: me leve até o céu. "O poder de Deus não tem limites", não é o que dizem?

Nem precisamos ser profundos nesse texto para observar que Jesus teria aberto o caminho pra as provas. Ou seja, na dúvida exija provas. Ou ele mesmo, ao ver a incredulidade, poderia ter dito "somente creia". Como caracterizar como fé se tocou as feridas? A fé pode e deve ser gerada a partir de comprovações? Evidente que sim! Há quem creia em Jesus porque julga ter sido curado por ele - teve "prova".

Até a presente data Jesus não veio me mostrar suas feridas. Espero que o faça! Porque estou, tão somente, querendo provas.

sexta-feira, 25 de março de 2011

PORQUE SOU AGNÓSTICO (Final)

Na total dúvida sobre que deus seguir, e muito mais sobre que religião, prefiro ignorar como melhor caminho. É um caminho. Qualquer coisa que fizemos na vida é um caminho. Diriam alguns que isso me levaria à perdição, que deus vai ‘pesar a mão’, que os ateus creem em deus quando vão morrer etc. Os mais afoitos chegam a ameaçar de maldições e demônios. Isso mesmo, já fui ameaçado... Quando não ameaçam dizem que vão orar por mim com aquele ar de compaixão e superioridade. O que já ouvi desde que abandonei uma relação inexistente com deus beira a insanidade. Ao contrário do que queiram ao agirem assim está o que vejo em suas vidas: gente que vive nas mesmas e limitadas condições que eu, luta com as mesmas ferramentas que eu e em nada me fazem pensar que minha vida é pior. Pelo contrário, eu já estive desse lado, já fui cristão devoto, absolutamente dedicado. Por isso, conheço-os muito bem e sei o quanto mente a si mesmos.

Na agonia da morte vou me apegar com o deus que me apresentarem na hora, caso tenha oportunidade, ou morrerei na ignorância em que vivo. No desespero que mal fará aceitar qualquer deus? Nenhum. Naquele momento de fragilidade tudo é possível.

Longe da pretensão dos que supostamente acreditam em deus e no poder de sua fé, sinto-me no dever de atrair aqueles que comungam da ‘não-fé’ e se sentem oprimidos. É uma forma de dividirmos ansiedades e ideias. Inclusive pelo fato de não encontrarem eco entre familiares e amigos, de serem tratados com indiferença e como se fossem coitadinhos. Quem não comunga da fé é oprimido pelos que estão à volta. Já foi pior, mas a atitude recorrente de 'coitadanizar' o descrente impressiona!

Além disso, mais que buscar a verdade, coisa impossível nesse mar de opções, quero identificar mentiras. Ao demonstrar as razões de meu desapego identifico a possibilidade da fé falsa. Somente a fé para aceitar as mais absurdas explicações que se vê sobre coisas que não conhecem. Divagam a despeito do cérebro que possuem para analisar as ideias e o mundo que se mostra tão claro em suas contradições e certezas. Aceitar a dura realidade da nossa existência é pesado demais. Nesse sentido até entendo a angústia de ser consolado, seja lá com que for. Até com uma deusa das águas e com um tal de Espírito Santo.

Por fim, seria maléfica a crença em deus? Com certeza. A história está repleta de absurdos em nome dele que ainda persistem e com sua total omissão. Deus é absolutamente omisso! Porém, mesmo que você não veja as agressões do passado nos dias de hoje, podes ao menos ver o tempo e esforço desperdiçado pelas igrejas, quando há um mundo de consertos a serem feitos da sua porta para fora que refletiriam em teu próprio benefício.

A religião priva seus seguidores de evoluírem, mantém-nos reféns das ideias de seus líderes, não respeita a historicidade de cada povo, alimenta as diferenças, divide famílias, frustra vida após vida, cria a falsa expectativa de soluções milagrosas e obviamente podemos viver perfeitamente longe de qualquer que seja a doutrina. Argumentariam que a fé tem tirado muita gente da lama. Com certeza, mas da mesma forma que outras tantas opções e através de uma única força em todo o mundo, em todas as épocas: a vontade pessoal de mudar de vida. Todas as pessoas podem ser boas a partir de si mesmas, de suas famílias, de sua sociedade. É na sociedade e suas instituições que está a vida agradável ou ruim nessa existência, porque da vida que vem depois, se é que há alguma coisa depois, nada sabemos. São suposições, as mais diversas.

Um forte abraço, André.

segunda-feira, 21 de março de 2011

PORQUE SOU AGNÓSTICO (3)

Nos textos anteriores tratei da inconfiabilidade da fé como sendo pessoal e intransferível. A humanidade já deu provas mais que suficientes de que pode acreditar em qualquer coisa, até na inexistência de deus. Também considerei a impossibilidade, mesmo que de forma resumida, de ter nos textos sagrados e demais expressões religiosas, verdades. A única verdade, por assim dizer, é que as expressões são limitadas no tempo e espaço e, portanto, incompatíveis com algo vindo de deus. Enfim, se ele tivesse algo a dizer aos homens diria a cada um e sempre a mesma coisa a todos.

Em momento algum disse, nem pretendo dizer, que deus não existe. Considero até uma tolice esse tipo de discussão. Apenas assumo que dele nada sei e tenho como certo que não há ser humano que saiba.

Os argumentos dos crentes por aí são basicamente:
  • A natureza fala de deus. Sim, com certeza. Porém, fala apenas que ele existe. Não dá nome, tampouco diretrizes e menos ainda alguma forma de culto, ou coisa que o valha. 
  • Deus fala comigo, mas eu não o ouço. Isso coloca minha incapacidade de ouvir acima da capacidade de deus de fazer-se ouvir. Tenho, assim, mais poder. Além disso, limitam, com esse argumento, a capacidade dele, seu poder. 
  • Preciso de fé para entendê-lo. Ora, se eu tiver fé passo a ser crente, como já fui. Na condição em que estou é preciso que ele se faça entender mesmo com a minha incredulidade. 
  • Por fim, dizem-me que um dia ele vai revelar sua vontade para mim. O caso não chega a ser eu, mas a humanidade. Se até a presente data perpetua-se a confusão que se vê, que interesse deus teria em me dizer a verdade sem que diga a todos indistintamente? Isso me colocaria como mais um e ainda assim eu ficaria me perguntando: por que eu? Que privilégio! Os demais não merecem tal tratamento? 

A conclusão a que cheguei é que não há a menor, mínima sequer, possibilidade de comunicação entre deus e homens porque ele não o deseja.

Evidentemente, a nossa natureza inquieta fez surgir toda a sorte de explicações e respostas que encontram toda a sorte de crédulos. Ao contrário do que fazem os crentes nessa ou naquela crença não tenho pretensão alguma de convencer outros dos meus arrazoados.

Mais que encontrar a verdade quero identificar mentiras, mesmo que as mais bem intencionadas.

E por que as igrejas estão cheias? Sobre isso escrevo no próximo texto.

É isso!

Abraço do André, um agnóstico.

sexta-feira, 18 de março de 2011

PORQUE SOU AGNÓSTICO (2)

Nasci num lar extremamente religioso. Natural ainda hoje. Até meus seis anos orava com meus avós pela manhã, assíduo nas reuniões da Assembleia de Deus e aos oito anos ganhei minha primeira Bíblia. Lembro do livro e do momento. Aos 12 anos minha família foi excluída dessa denominação porque tinha televisão (hoje os assembleianos têm TV). Em seguida fomos para a igreja Batista. Lá recebi os fundamentos do cristianismo e me batizei. Aos 17 anos segui para São Paulo, onde cursei Teologia pela Faculdade Batista até a quinta fase. Ao chegar comprei minha quarta Bíblia, porque as anteriores eu havia destruído pelo uso. Essa guardo até hoje. Outras três foram consumidas, também pelo uso. Em 1986, num embalo de demissões do banco Itaú (trabalhava numa das agências da Avenida Paulista), resolvi voltar para Santa Catarina. Cresci sob os auspícios da doutrina, dos dogmas, das regras, dos princípios como todos os demais cristãos, em geral o são.

O fato é que não há religião sem dogma porque são eles que identificam, que delimitam, que dão sentido àquilo que é alvo da fé. Quem diz que não segue dogmas segue o dogma de não seguir dogmas.

Apesar de alguns relutarem em admitir não há a menor, singela que seja, possibilidade de fé em deus e em religião sem a mão pesada da doutrina. Qualquer que seja a religião só será possível dizer-se dela conhecendo seus parâmetros. A estupidez é tal diante desse fato que há quem se negue em seguir essa ou aquela doutrina e ainda diz-se pertencente à crença. Ora, tal pessoa é imbecil ao extremo porque rejeita o que há de mais óbvio nessa relação. Pode ser que seja uma forma de anestesiar a consciência para justificar algumas de suas atitudes. Nesse sentido qualquer iniciativa de sincretismo religioso e ecumenismo são mentiras descaradas.

Porém, no imbróglio que se formou sobre o que é doutrina cristã é necessário olhar a Bíblia como um livro que traz a descrição parcial da formação de uma identidade. Esse livro, ao contrário do que se diz, não é o ‘manual do fabricante’. Longe de ser um livro ‘técnico’ é um livro histórico. Nenhuma doutrina está disposta didaticamente. Há a necessidade de pinçar-se um texto daqui outro dali e, assim, formar um dogma, algo imutável por definição.

Sendo construída ao longo de uns 1,5 mil anos a Bíblia traz informações distantes da nossa realidade, contexto com pouquíssima relação com o nosso. Aceitar que deus tenha dado aos homens sua verdade por este meio é altamente excludente, pois deixou de revelar-se para povos de outros continentes durante milênios. O Alcorão foi escrito no século VII e, portanto, negou suas verdades aos que viveram antes ou estavam longes. A primeira Bíblia chegou ao continente americano quase 1,5 mil anos depois de Jesus. Que deus seria tão burro para usar uma estratégia dessas? Se não é burro, de antemão condenou trilhões de gentes à escuridão para privilegiar os que moravam no oriente médio. De todo inaceitável.

Eis que surgem muitas correntes teológicas a partir da Bíblia, o que nos joga num vazio. Ora, em não havendo clareza doutrinária como pode haver identidade? Um dos maiores exemplos do que digo está na divindade de Jesus. No Concílio de Nicéia, início do quarto século do nosso calendário, a discussão foi levada a termo e venceu a ideia de que Jesus é deus, da mesma natureza do Pai. Mas isso foge a muitos dos textos dos evangelhos que são solenemente negados pela maioria dos cristãos. A Trindade, por sua vez, é de difícil ou nenhum entendimento e os textos usados para fundamentá-la são maltratados ao máximo. Outro exemplo é a doutrina do dízimo. Toda a fundamentação dessa contribuição está no Velho Testamento, com uma pinceladinha no livro de Hebreus, quando elogia Abraão por decidir dar 10 por cento de sua renda. Qualquer cristão, minimamente instruído, nega o pagamento do dízimo e a divindade (não a filiação) de Jesus de Bíblia em punho.

Não sendo satisfatório é interessante mencionar que na Torá (cinco primeiros livros da Bíblia, também conhecida em Grego por Pentateuco) não há céu, nem inferno. A relação com o deus Javé se dá de forma temporal.

A Torá não foi suficiente para o povo Judeu e seus rabinos escreveram o Talmud. Os islâmicos também não conseguiram se limitar ao Corão e escreveram a Suna. Os cristãos são campeões, pois anualmente milhares de livros são editados para traduzirem aos fiéis a Bíblia. Altamente incompetentes para lidarem com o que está diante dos olhos, são capazes de dizer que o Espírito Santo revela o que está escrito. Ora, para que pregações, para que livros, para que estudos se o ES é assim dão atuante? No livro de II Timóteo 3.16-17 diz que “Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra”. Ora, se são assim mesmo não seria necessário qualquer Espírito para revelar a revelação. Contudo esse texto é usado pelos crentes para dar base a toda a Bíblia, mas se refere apenas ao Velho Testamento, palavra de deus conhecida do apóstolo Paulo, autor desse verso. Fosse a verdade a Bíblia seria autoexplicativa e qualquer um leria e chegariam todos às mesmas conclusões. O que, de fato, não ocorre.

Diante do visível desprezo de deus em se fazer entender uniformemente diante dos homens, por que eu haveria de seguir esse ou aquele modelo, essa ou aquela escritura? Diriam alguns que essa diversidade é fruto da maldade humana. Pode ser. Mas mesmo assim a manutenção da verdade dele é do interesse dele e muito mais condições de se fazer entender ele tem.

sexta-feira, 11 de março de 2011

POR QUE SOU AGNÓSTICO (1)

INTRODUÇÃO

Há anos tenho me insurgido contra o pensamento cristão, como se houvesse um. Raríssimas vezes, uma ou duas, fui questionado do porquê eu seria um agnóstico, um ateu na prática. Então resolvi escrever, quem sabe alguém possa descer do pedestal e olhar essa discussão por um outro ângulo. Quem sabe...

No frigir das coisas acabo assumindo que me tornei um descrente nas expressões religiosas e na relação com deus. Notaste o ‘me tornei’? É preciso ter fé para ser ateu.

Na mistura que fazem dessas coisas é preciso deixar claro que não tenho qualquer possibilidade de comentar a existência ou não de deus. Está tão longe de mim que assumo total ignorância. Isso se contrapõe às convicções de quem é crente logo de início.

O caso é que vivo como se deus não existisse, assim como todos. A diferença é que assumo e os demais se iludem com rituais, textos e ideias que absorveram em momentos de fraqueza e não são capazes de desfraldá-las, de abri-las a si mesmos, de fazerem a mais simples das perguntas. Alguns mentecaptos chegam ao ponto de dizerem que fazem o que deus determina. Outros caem no ridículo de pinçarem o que lhes interessa da crença numa crença.

Os textos sobre esse assunto, um possível ateísmo, serão divididos em capítulos para ser o mais didático possível. E neste primeiro pensarei com você sobre a fé, energia que nos faz não somente aceitar uma ideia, mas defendê-la com intensidade. Não trato da fé como escopo doutrinário ou conjunto de dogmas. Como preciso ser objetivo alguns detalhes ficarão de fora.

SOBRE A FÉ

Para o crente a fé é de tal monta que discuti-la beira a insanidade. A fé é o ato de crer, de dar existência interna a algo externo. É assumir que experiências de outros são verdadeiras, com ou sem comprovação. É aceitar como fato uma história. A Bíblia diz que “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem” (Hebreus 11.1). Como posso dar como prova o fato de que eu creio? Ora, nada mais natural do que uma afirmação dessas num livro que trata de coisas etéreas. Minha fé nada pode provar!

A fé não deve ser discutida porque é pessoal e intransferível. Pensamos, analisamos, queremos respostas e daí surge a fé. É um subproduto da razão, um efeito colateral. É da razão que nos vem a fé. Mesmo a demência, que gera pensamos desconectos, mostra-se crédula. Ou já não te deparaste com um louco dizendo que é Jesus? Ou que tem pessoas à sua volta quando não tem nada? Ele está usando da fé naquilo que está claro em sua mente. Eis porque as tais visões comuns aos pentecostais parecem tão reais. Aliás, para ir dormir com tranquilidade é preciso ter fé que acordará bem. Em contextos de conflitos essa tranquilidade se perde porque a fé de que vai acordar bem estremece diante do que está à volta. A fé sucumbe tão logo a realidade aperte, se manifesta como anestesia ou torna-se a força. O comunismo ainda sobrevive porque há quem crê que é a solução para nossos conflitos sociais. A fé não tem valor em si mesma porque pode, e é, depositada em toda a sorte de devaneios que os homens possam engendrar.

O objeto dessa fé é o foco da discussão. No que creio, como creio e para que creio está acima do ato de crer. Nisso reside muito da discussão infrutífera de religião. Como poucas pessoas têm clareza dessa dinâmica a confusão se instala. Não conseguem distinguir suas convicções do seu objeto. Além de achar que a coisa é um ataque pessoal. Sua fé é tal que não conseguem sequer ouvir um contraponto, mesmo que não tenham certeza do todo de sua doutrina. Por exemplo, que convicção pode ter alguém que se inicia no cristianismo, nos estudos da Bíblia? Há quem diga que vai uma vida e não se conhece a Bíblia. Então como posso defender o que jamais conhecerei plenamente? Em se tratando de texto sagrado a fé entorpece a razão. Nem o óbvio é distinguido. O clímax é dar legitimidade do objeto pelo ato de crer: creio, logo existe!

No caso de deus eu não precisaria de fé assim como não preciso de fé para aceitar a existência de meus três filhos e da minha neta. A fé tem mais a ver com a dúvida do que com a certeza. A relação com deus deveria ser tão natural que nem se mencionaria a fé. Preciso de fé para aceitar a existência de Sócrates, Aristóteles ou Napoleão. Portanto, precisamos acreditar em deus porque sua existência é subjetiva e sequer podemos saber quem é, de que deus estamos falando. Crer em deus é a antítese de sua existência. Em existindo, não preciso crer. Muito menos preciso sentir. Ora, quem diz que sente a presença de deus mostra a mais profunda fragilidade. Se sei que existe não preciso sentir!

Por fim, como há todo tipo de objeto de fé, aquilo em que se crê, não há como basear-se na fé, ato de crer. Cada um tem suas convicções e devemos discutir aquilo que está acima do pessoal, porque se há uma Verdade ela não pode ser pessoal. Também não posso aderir a uma fé porque alguém tem toda a certeza do mundo, pois essa certeza é dele, mas posso identificar aquilo que não aceito como doutrina.

O próximo texto será sobre doutrinas, dogmas ou princípios religiosos. Por que precisam existir, suas possíveis origens etc.

Abraço!

quinta-feira, 3 de março de 2011

IMAGINAÇÃO x PASSIVIDADE DIVINA

O cristão considera outras formas de crença tolas, satânicas, delirantes, absurdas. O islã tem no resto a vontade diabólica do ocidente e não vejo qualquer consideração nesse sentido para com o hinduísmo, por exemplo. O hinduísmo, por sua vez, tem seus 300 mil deuses e aí não sobra tempo para pensar nas demais opções de fé. O judaísmo está no contexto do deus-pátria, coisa muito cômoda para quem quer ser o centro do mundo. O ateísmo imagina a inexistência de deus. O esoterismo tem nele uma energia. A maçonaria recebe todos debaixo do seu Grande Arquiteto. O espiritismo aceita os que o aceitam mesmo em total antagonismo. A Seicho-no-iê é de uma distorção dos textos dos evangelhos que só os ignorantes no cristianismo babam com aquilo - não li um texto até hoje que não fosse uma viagem grosseira na maionese. Incontáveis formas de ver o divino espalharam-se história.

Cada crença entende a outra como falsa ao mesmo tempo em que engendra respostas intragáveis à existência. Evidente que tem a turma do ‘politicamente correto’, preferindo evitar o confronto com a bobagem de ‘fé não se discute’, ‘cada um no seu quadrado’ e ‘o importante é a fé’. Coisa de idiotas, pois a fé, o ato de crer, é insignificante nesse contexto já que cada um crê naquilo que lhe convém ou que foi educado. Ora, tudo, absolutamente tudo é passível de discussão, principalmente o objeto da fé.

Fé e certeza não andam juntos. A certeza não requer fé. Não preciso acreditar que meus filhos estão vivos, eu os vejo. Deus está tão longe das pessoas que é na fé que se apoiam. A fé é fruto da possibilidade, não da certeza. A convicção na possibilidade gera uma certeza interna, pessoal, mesmo que comum a um grupo, não uma certeza universal. A fé em Deus nada revela, mas a fé num determinado deus é que torna a discussão necessária. O que torna um deus em Deus senão o que o crente diz que é?!

‘Você acredita em Deus?’. ‘Sim’, responde um bandido, traficante e estuprador.

As crenças afrobrasileiras, por exemplo, vivem no mundo da mitologia e são prova incontestável da fragilidade do ato de crer que se revela no ser humano. Ou seja, existe aquela ideia religiosa para aquele que crê, nada além. Daí ser algo pessoal, intransferível.

Não há conceito religioso que não seja fruto do contexto em que vive o crente, de outras fontes externas a si. Mesmo os que ‘criaram’ uma fé, o fizeram a partir de fatores externos misturados com suas elucubrações, desejos e ansiedades. Algo absolutamente humano e natural, dadas as dúvidas que nos cercam.

Ora, no centro de tudo isso está Deus, sob os mais variados prismas, sob as mais variadas fontes. Mas qual deus?

Qual a razão ou origem desse imbróglio todo em que nos encontramos? Para mim a resposta é bem simples: deus não se comunica conosco. Se o fizesse supõe-se dúvidas? Jamais! Não há qualquer barreira para a comunicação entre ele e nós. Afinal, se falasse, falaria a mesma coisa para todos. Além disso, Deus não precisa de intermediários.

É uma brincadeira de criança achar que Deus se limitaria a um livro, ou xamã, ou pastor, ou padre, ou rabino, ou local, ou ritual! Portanto, a diversidade não está sob a responsabilidade da criatividade humana, mas na total ausência de comunicação entre Deus e a humanidade. De Deus nada sabemos, porque ele não quer.

Eu creio desta forma e você não tem como provar que estou errado. Simples né!

terça-feira, 1 de março de 2011

O AMOR TAMBÉM FAZ MAL

Tenho uma vizinha muito querida. Uma senhora classificada como ‘do lar’, com família estruturada, filhos bem educados, marido exemplar como cidadão e companheiro. Tudo dentro dos sonhos de muitas pessoas e que tem minha profunda admiração. Uma de suas ações de amor e dedicação é colocar água doce para os beija-flores. Contei 12 desses pássaros se deliciando com seu favor certa vez. Porém, isso tira deles sua relação com as flores e prejudica a polinização.

Não raro vemos mães que, de tanta dedicação, tornam seus filhos inaptos para algumas das relações sociais. Em geral não sabem lidar com os conflitos de sua idade. Chegam a brigar com professores sem antes saber o que seus filhos ‘aprontaram’. Nesse particular a Teoria do Desenvolvimento Psicossocial de Erik Erikson traça fases claras sobre o desenvolvimento humano e que algumas mães insistem em não respeitar em seus filhos, principalmente no que tange às relações interpessoais que fazem parte do nosso crescimento.

Um homem, na ânsia de ser o provedor e do sucesso profissional, dedica-se ao trabalho a ponto de negar à sua família sua presença. Seu esforço por uma vida melhor e estrutura financeira evitam que tenha o que há de mais significativo: afeto. Homens se acham dominadores e tendem a ter suas mulheres como posses. Um dos aspectos dessa posse eu trato no texto Maridos Inseguros, Homens Violentos.

Fiquei pensando que esses exemplos podem ser classificados como amor. O sublime amor. Afinal, quando alguém que cuida (do seu jeito) dirá que aquilo que faz não é amor?

O problema está criado. Quem ama faz aquilo que supõe ser o melhor. E quando seria de fato o melhor? Isso tem a ver com a informação que dispõe. Quem ama, em geral, parte daquilo que ele pensa ser o melhor, parte de suas informações, de seus conceitos, de sua visão e até de sua insegurança. Ora, essa visão precisa ser ampliada com conhecimento e diálogo, com a observação do mundo e das demais relações. Requer dedicação antes de decisão.

Quem ama precisa ver seu objeto de amor pelo prisma das necessidades do amado. Rever o amor para amar de fato!