O QUE NÃO TE DISSERAM SOBRE O "BOM SAMARITANO"
Vamos à parábola do Bom Samaritano, no evangelho de Lucas, capítulo 10:
30 E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.
31 E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo.
32 E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo.
33 Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão;
34 E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele;
35 E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.
36 Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?
37 E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira.
Durante meus 33 anos de fé cristã ouvi sempre a mesma coisa sobre este trecho bíblico: que deveríamos ajudar o próximo. Muito bem, teve seu papel em minha vida, bem como de outros tantos. Porém, foi uma frase da ex-ministra da Inglaterra, Margaret Tatcher, que acendeu uma luz incrível sobre o texto. Disse ela que o samaritano não seria lembrado por suas boas intenções, mas porque tinha dinheiro para ajudar a vítima.
Há contextos aqui. Um da mensagem original, e outro da observação da ministra. Naquele vou dissertar adiante. Neste, em que ela defendia os conservadores britânicos que sabem que é preciso dinheiro para realizar qualquer coisa, contra os "trabalhistas" que querem um governo assistencial, tirando de muita gente sua obrigação básica de sobreviver às suas próprias forças.
Na parábola há os ladrões, a vítima (viagem de menos de 30 quilômetros entre as cidades), o sacerdote, o levita, o samaritano, o cara da hospedagem e, provavelmente, família ou funcionários no trabalho. E cada um deles tinha uma razão de estar ali ara completar a mensagem. Vamos aos detalhes, então.
Não há qualquer comentário sobre os ladrões, senão a agressão. Não diz, por exemplo, de que povo eram (hebreus, assírios, persas, ou mesmo samaritanos). Nada diz se foi algo de ocasião ou eram "profissionais". E nada menciona sobre denunciá-los a alguma autoridade ou algo que remeta a uma reparação.
A vítima também não tem sua origem étnica definida. Sugere, apenas, ser hebreu. Contudo, naquele contexto, poderia ser, até, um cidadão romano. Estava só e a pé, o que remete a não ter muitos bens para serem roubados. Recebeu o socorro imediato, mas não ajuda para recuperar-se do prejuízo.
Na sequência vieram o sacerdote e o levita. Ambos ignoraram o coitado. Jesus reage à inquisição de um "doutor da Lei", versos 25 a 29:
Interessante observar isso porque a referência à religião é clara, como se a condenasse. Se vermos esta estória no contexto da construção do que hoje temos como Bíblia, no Concílio de Niceia (325 AD), dá-se intenção de ferir e desprezar o judaísmo. Ora, se o foco fosse somente o de ajudar um necessitado, nem haveria a necessidade de citar quem, eventualmente, não tenha ajudado. Da mesma forma poderia citar outros de outras religiões, como pagãos romanos ou um zoroastra qualquer. Assim a crítica seria à religiosidade vazia como um todo. E seriam apenas os religiosos o problema? Todo ateu é um "bom samaritano"?
25 E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?
26 E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês?
27 E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.
28 E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso, e viverás.
29 Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?
Interessante observar isso porque a referência à religião é clara, como se a condenasse. Se vermos esta estória no contexto da construção do que hoje temos como Bíblia, no Concílio de Niceia (325 AD), dá-se intenção de ferir e desprezar o judaísmo. Ora, se o foco fosse somente o de ajudar um necessitado, nem haveria a necessidade de citar quem, eventualmente, não tenha ajudado. Da mesma forma poderia citar outros de outras religiões, como pagãos romanos ou um zoroastra qualquer. Assim a crítica seria à religiosidade vazia como um todo. E seriam apenas os religiosos o problema? Todo ateu é um "bom samaritano"?
O fato de usar um samaritano teve um objetivo bem específico, já que os tais eram desprezados pelos de outras regiões do que era Israel na época. Seria algo como um boliviano em São Paulo. Ou um branco socorrido por um negro em Portland (EUA) na década de 1970. Ou mesmo um polonês perdido em Blumenau, no início do século 20, ajudando um alemão. Há muitas formas de apontar o antagonismo por origem. Se a vítima fosse um sacerdote ou um levita a coisa teria sido diferente?
Na sequência vemos que o ferido é deixado aos cuidados do dono da hospedaria. Numa época como aquela, numa estrada de conexão entre cidades, com risco de assaltos, o dono sabia muito bem o que fazer. Entretanto, não foi solidário, ou benfeitor do "próximo". Foi profissional! E para aceitar que outras despesas fossem pagas noutro momento torna o samaritano alguém bem conhecido e com crédito.
Dos quatro personagens transeuntes apenas um foi atacado. Dentre eles, me parece óbvio, o samaritano dispunha de mais recursos e seria uma vítima mais lucrativa!
"Quem era o próximo?". Neste momento vem a "moral da história" com seu foco, a despeito das minhas considerações, as quais podem ser plenamente ignoradas, se vasculhar detalhes não te interessa. O próximo é a pessoa imediata num dado momento. Ou, como diria meu pai, Seu Antonio: "O parente mais próximo é o vizinho!". Ou, podemos ter um amigo do peito, aquele de longa data e muitas histórias, para o qual podemos estar indisponíveis naquele dia e hora do acidente. O próximo, nessa moral, não precisa, sequer, conhecermos. Não precisamos saber seu nome, nem relações familiares ou políticas. Nossa obrigação não exige sentimentos, exige apenas o dever de fazer.
"Vai e faze o mesmo!". Mas com que recursos? Agora voltamos ao ponto no qual Tatcher nos remete às condições meramente humanas. Não são as condições de fé, religião, tampouco ao Deus. Eis aquele momento que orações não resolvem, que intenções não contam, mas se tem os recursos. Por isso a prosperidade de um povo se torna mais importante que sua profissão de fé. Pelo templo vemos o padrão dos seguidores, mas não vemos essa relação quando a questão é estender a mão ao PRÓXIMO. O templo, para mim, revela o "tamanho" da hipocrisia dos que lá se reúnem, como se o deus deles quisesse mais tijolos que misericórdia.
E você? Quer mais tijolos ou mais misericórdia?
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