domingo, 1 de dezembro de 2013

FÉ NO SISTEMA

Diante de tantas "comunidades terapêuticas" que tratam de dependentes químicos com ênfase em Deus, que buscam em pedágios e recursos públicos o custeio de suas despesas, fiquei cá pensando...

Ora, em qualquer dessas instituições que possamos ir, há uma intensa terapia baseada em orações, leitura da Bíblia, cânticos religiosos e falações sobre o poder de Deus. Em sendo assim, por que não são bancadas pelas igrejas evangélicas? A resposta me parece óbvia. Só que o óbvio às vezes precisa ser dito: as igrejas estão preocupadas consigo mesmas.

Contudo, há mais que isso. Vejo um exercício de uma fé falsa, vazia e até muito tola. Ora, como podem evocar o poder de Deus para restaurar a vida de dependentes químicos, quando esse mesmo Deus não provém o sustento? Ele, o tal Deus, poderia usar outros humanos para isso. Entretanto, fica escancarado que não é assim. Caso fosse os tais pedágios não existiriam porque as doações viriam pela pura iniciativa dos mistérios da fé. A comida e o dinheiro das despesas simplesmente apareceriam, doados sim, mas sem que tivessem que ser pedidos. O pior de tudo isso é lançar mão dos poderes públicos, de pires na mão diante de políticos.

De um ambiente de fé em Deus ao socorro vindo de um sistema. Um sistema que, por definição, não é teísta. O poder público é laico, não tem Deus algum e depende essencialmente da vontade de homens que a sociedade reputa como corruptos, de má índole, ladrões e mentirosos. Que ironia!

O que também me chama a atenção é que recorrem ao "poder de Deus" para curarem-se das mazelas das drogas. Ora, que Deus é esse que permitiu que chegassem à lama da existência? "Mas drogaram-se porque quiserem..." diriam alguns. Então, é de saírem porque querem! Há muitos casos de quem deixou as drogas porque decidiu, porque quis, porque desejou, porque teve atitude, porque reconheceu sua condição e outros tantos porque envolveram-se com um amor ou com um esporte. E outros precisam de um Deus que os viu mergulhar nisso e ficou parado, passivo.

A psicologia reconhece, sem dúvidas, que há pessoas mais frágeis que outras à substâncias químicas (drogas e álcool). Mas os religiosos passam por cima disso e atestam que Deus fez a obra de retirada das drogas quando o sujeito conseguiu, e o Diabo foi mais forte quando o sujeito não conseguiu.

Este é mais um exemplo da fé que depende de um sistema humano para realizar sua obra divina, a qual depende da vontade do indivíduo.

2 comentários:

  1. Vender caridade(??) q horror. Ouvi não lembro de quem, q as pessoas usam deus como papel higiênico. Na hr da KHDA.
    O homem cria deus à sua imagem e semelhança....pobres homens, pobres deuses...esta é minha fé.
    Parabéns Roldão. Leitura excelente.

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  2. Prezado André,
    Recentemente, li no noticioso local que uma destas 'comunidades terapêuticas', com o sugestivo nome "Deus está aqui"( sic!!!), está preocupada com a sua situação pois tem até o final do mês em curso para comprar a propriedade em que está. Qual o caminho???!!! Aciona-se o Poder Público!!! Sim, verbas públicas para a expansão da obra e do nome deste Deus!!!
    Pô, cara! Mas Deus não está lá??!!! O que ele tá fazendo, tchê???!!!
    A leitura que faço é de que Deus e seus ladinos representantes estão imiscuindo-se no Estado ( com a anuência e incentivo dos governantes de plantão nas três esferas de poder, pois também são beneficiados pois isso 'agrega valor ao camarote/curral eleitoral deles!), para, em nome de uma nobre causa, alocar recursos do Estado que é Laico, no intuito de ganhar mais visibilidade à falsa obra divina, cujo resultado prático depende do sistema humano e da vontade individual, como bem colocas no parágrafo final do post.
    Parabéns, André, por nos dizer o óbvio em mais um belo e reflexivo texto!!! Abraços do Betinho Gaúcho, tchê!!!

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