domingo, 17 de março de 2013

SUPERSTIÇÃO - Entrevista com a psicóloga Simoni Padoin

A superstição está de tal forma inserida na nossa sociedade, para não dizer em todas, que sugere uma espécie de ''fenômeno social''. Em princípio tem-se como algo inofensivo. Contudo, creio que há muito a ser observada, discutida e criticada. Sem querer encerrar as possibilidades sobre o assunto trago uma entrevista feita via Facebook com Simoni Padoin, psicóloga e psicoterapeuta reichiana.

ANDRÉ ROLDÃO - Poderias definir o que seja 'superstição' num sentido lato e/ou em algum sentido dado pela linha reichiana?

SIMONI PADOIN - “Tenho uma tendência à superstição, cuja origem ainda me é desconhecida.” Freud em 1901.
Bem, em sentido amplo, quase conceitual, superstição, seria a falta de uma lógica formal entre causa e efeito daquilo que está sendo defendido. Por exemplo, se eu tiver coceira na palma da mão direita, vou ganhar dinheiro! Não há como embasar racionalmente esse acontecimento. O supersticioso crê, que determinadas mandingas, podem ter influencia vital na sua vida. Então, esse modo de se relacionar com a vida, impõe dependências, apegos e submissões emocionais. Para REICH o processo de crescimento humano passa pela dissolução de couraças físicas e emocionais, acessando com isso um ser mais livre, liberto e libertário. Por fim, há que se compreender que para praticar e sustentar uma ideia supersticiosa, faz-se uma cisão entre o “mundo real” na direção de um “outro mundo/irreal”, e essa é uma atitude psicótica. Quanto mais saúde emocional, menos cisão, menos dependência de qualquer ordem.

AR - É possível identificar a origem dessa necessidade humana de estabelecer uma relação com algo sem uma lógica formal?

SM - Me sinto tentada a responder objetivamente, que são as variáveis organizadoras das relações humanas, CONTROLE E PODER, que dão o tom desta necessidade. Quando a forma de condução das relações que tenho estabelecida, de amor, amizade, trabalho, ou qualquer outra modalidade, não está me bastando, posso resolver de diferentes maneiras, na reflexão psicoterápica, no silêncio, na leitura, ou nas modalidades de superstição que não são poucas, a citar: magia, curandeirismo, adivinhação, astrologia etc.
É neste e deste lugar, que resgata-se um poder suposto de informação, de saber, que organiza a angustia basal que me incitou a busca. Quanto mais nutrimos essa maneira de solucionar nosso desempoderamento frente as relações e a vida, mais rebaixamos nossa reflexão acerca das nossas dificuldades, limitações, fragilidades e afins. Por fim, vale lembrar que, segundo alguns religiosos, só no cristianismo cabe punição aos supersticiosos, nenhuma outra vertente religiosa, judaísmo, islamismo, umbanda, dentre outras, estabelece textualmente qualquer punição de perda da graça, visto que em cada uma delas, há rituais que podem ser considerados superstições.

AR - A superstição seria uma espécie de fuga de uma relação objetiva e racional com as dificuldades da vida. Neste sentido há semelhanças com as relações afetivas, em que o apego ao outro chega a anular a identidade de quem supostamente ama. Da mesma forma vê-se no uso de psicotrópicos com suas sensações de prazer e distanciamento da realidade. Haveria uma fragilidade comum entre os esses casos? É possível que isso seja congênito?

SP - Andre, eu entendo a superstição menos como fuga e mais como entrega. Vamos hipotetizar a ida de alguém ao tarólogo. A decisão entre ir ou não à leitura do Tarô passa pelo crivo moral, pelo crivo do desejo e até pelo crivo financeiro dentre outros; e nisso tem consciência, tem juízo. Quero dizer: a decisão de ir é consciente. No entanto, chegando ao tarólogo, só vale sua queixa entregue ao mestre do Tarô e depois disso sua escuta pro saber que vem das cartas, resta crer, nada além de crer. Você está num universo de conceitos e “verdades” diferente.
Há semelhanças com as relações afetivas sim , porém, só com aquelas estruturadas no amor romântico, que é, por assim dizer, uma superstição. Quanto ao psicotrópico, cabe salientar que ele não faz nem fuga, tão pouco entrega, ele brinca de “mandrake”, lembrando a diversão infantil de congelar a posição corporal, ao ouvir a voz de comando. Congelamos o sentir genuíno de qualquer ordem, congelamos a dor e o prazer.
Enfim, ser supersticioso não é um evento congênito, mas é cultural, faz parte do meio onde crescemos, onde fomos educados, e todas as outras formas de influencia resultado das conexões que experimentamos.

AR - Você falou em crescimento humano. A superstição é uma barreira?

SP - O crescimento humano é anárquico, não tem deuses, não tem comandos, sugere, exclusivamente, que experimentemos; que não sejamos servis, que a prática da liberdade seja o leme; que todos os temores sejam rebaixados ao descrédito, e que vivamos por ESCOLHA, e não por CHANCE. "A superstição é uma barreira?". É!

AR - Há alguma relação entre superstição e religião, ou religiosidade?

SP - Em ambas não há escolha. Há escuta, adaptação, obediência e fé. Ambas executam um processo anulatório daquele que o busca. Nas religiões de orientação cristã, diferente de outras correntes religiosas, há perda da graça quando o fiel se envolve com a superstição, o que sugere um limite entre uma e outra, mas também sugere estreita relação com uma visão dicotomizada de mundo, onde tudo, impiedosamente, cabe em duas possibilidades – bem e mal, feio e bonito, gordo e magro, sagrado e profano. Nesse contexto, superstição é o que responde pelo que há de mal, enquanto a religião pelo que há de bem. Então, a diferença entre uma e outra, é o lugar da aceitação, uma está à margem, a outra incluída e aclamada; diferente disso tem estreita relação.
"Que as fogueiras não reacendam, ao final dessa entrevista".

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