quinta-feira, 1 de setembro de 2016

JUÍZO FINAL - JESUS NA CAUSA

Haverá um ''Juízo Final'', como a Bíblia e outros livros sagrados fazem menção? Falo não de acreditar, mas de ser um fato. Quando dependemos de crer ou não é porque há dúvida consistente. Crer é instância final da falta de provas. Ora, não precisamos de fé para interagirmos com nossos familiares, por exemplo. A fé remete, no mínimo, à incerteza. Se "creio, logo existe", então "se não creio, logo não existe".

Mas em se tratando do tal julgamento divino, quando todos os humanos estarão diante de um tribunal temos dois problemas absolutamente óbvios: primeiro, supor que Deus precise disso é colocá-lo na lata de lixo, afinal, se sabe tudo não há o quê julgar; segundo, julgamento remete ao contraditório. Sim, teremos espaço para defesa? Isso também é colocar Deus no lixo, pois parte da possibilidade de que possamos convence-lo de alguma coisa que não saiba ou esteja avaliando de forma errada. Deus se sujeitará a argumentos humanos?

“O Juízo Final” de Michelangelo na Capela Sistina, Vaticano
O Juízo Final é uma distorção do ato de pensar. Além das razões expostas que mostram que o evento é impensável diante de um Deus absoluto em si mesmo, temos o fato de que nossas ações são fruto de muitas influências. Nos comportamos conforme nossa educação, época em que vivemos, status social, religião que nos foi ensinada, idade, gênero, condições físicas, saúde mental e até mesmo em função do espaço geográfico. Não somos tão autônomos quando supomos. Reagimos, pensamos e cremos sob diversas influências.

A Bíblia diz que haverá. Porém, é apenas um livro. Deus não veio a mim, nem a ninguém que me lê agora e disse: "Vai pela Bíblia!" ou "Vai pelo Corão!". Quem diz isso é outro ser humano. E supor que Deus precise de outro ser humano pra dizer o que pensa é joga-lo igualmente no lixo. Nem a mais contundente descrença seria empecilho para Ele. O Todo Poderoso é todo poderoso, inclusive para falar por si mesmo.

Entretanto, há os que dizem que Deus falou com eles. Ora, isso não faz a menor diferença, já que comigo não falou e posso duvidar que tenha falado com outros. Eis que estamos diante, novamente, da insubstância da fé.

Segundo Sami Isbelle, autor dos livros "Islam: a sua crença e a sua prática" e "O Estado islâmico e a sua organização", diretor do departamento educacional e de divulgação da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, em artigo no jornal Extra:

Após o fim mundo, Deus irá ressuscitar os mortos para a prestação de contas de tudo aquilo que fizeram nesta vida. Aqueles que entrarem no paraíso ficarão lá eternamente, gozando de total felicidade, enquanto aqueles que adentrarem o inferno permanecerão lá um tempo, pagando por suas más ações, e depois entrarão no paraíso, pela misericórdia de Deus. Somente um grupo ficará eternamente no inferno: aqueles que não tiverem no coração nem mesmo a mais ínfima porcentagem de crença no Deus Único. 

Detalhando mais

É inegável a influência da família. Para bem e para mal. Nossos pais determinam muitos dos nossos comportamentos e, em geral, repassam suas crenças. Sou um dos poucos que não fez isso.

O momento histórico é absolutamente determinante. Um homem do século 18 é muitíssimo diferente do século 19. E assim por diante, seja lá qual for a ápoca a ser comparada. O que mantemos são nossas ansiedades na vida. E, à essas ansiedades reagimos conforme as informações disponíveis.

Preciso detalhar mais? É preciso ser um gênio para arrazoar sobre sociopatias e deficiências do lobo frontal do cérebro que nos foram impostas geneticamente? Esquecem que assassinos em série sofrem de "deformidade" cerebral que os impede de ter remorso, por exemplo. E como seria o julgamento de quem veio com defeito por obra divina? O tal não pode ser responsabilizado por algo que foge à sua vontade. Se nascemos pela Sua vontade é preciso aceitar que Ele determinou que alguns nascessem para o crime. Como adequar esse fato à ideia de Juízo Final?

Ora, a ideia desse tal julgamento veio muito antes de termos tantas informações sobre nós mesmos. Há séculos buscamos respostas e o tema está inserido nesse contexto, pois é natural, me parece, que os antigos imaginassem que Deus haveria de julgar os atos humanos diante de tantas injustiças e da incapacidade humana de exercer a justiça. Simples, um cara que mata duas ou mais pessoas morre apenas uma vez... Como podiam entender que uma mulher morre no parto ou uma criança sofre? Tudo recaía sobre a ideia de que Deus resolveria tudo, ao menos, num futuro julgamento.

Desde o Código do rei Hamurábi, escrito aproximadamente em 1772 a.C., na região da antiga Mesopotâmia, que o homem vem tentando colocar regras de justiça nas relações humanas. Hoje tornou-se impossível seguir os Dez Mandamentos e seus desdobramentos nos livros da Torah, por exemplo. Nossos códigos são insuficientes para tudo e os livros sagrados são prova disso. Como supor que Deus vá dividir toda a humanidade em bons e maus? As penas para nossos atos jamais poderiam destinar-nos ao Céu ou Inferno, pois ninguém é totalmente mau, nem totalmente bom. E o contato com os tais livros sagrados é tão ridículo, seja por saber que existem, seja por conhecê-los profundamente, que quem ousa dizer que conhece seu Deus faz-se mentiroso.

E a vida segue.

Abraço roldânico a todos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário