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    A MANIPULAÇÃO DE UM TEXTO E O VAZIO DA FÉ

    O principal texto profético a cerca de Jesus, na visão dos cristãos, está em Isaías 53. Por exemplo, "⁵ Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados". Mas essa atribuição é falsa. E a razão é bem óbvia porque não fala da ressurreição e ascensão. Ou seja, omite o principal. Está na ressurreição a vitória, como bem fala o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 15:17–20:

    E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem.

    E o que o judaísmo pensa do texto de Isaías? Afinal, é no judaísmo que está a base interpretativa do Velho Testamento, não no cristianismo.

    Na visão predominante do judaísmo, em várias passagens anteriores de Isaías, Jeová identifica o servo como Israel, seu povo:

    • Isaías 41:8 – "Tu, Israel, és meu servo..."
    • Isaías 44:1-2 – "Jacó, meu servo..."
    • Isaías 44:21 – "Israel, tu és meu servo."
    • Isaías 49:3 – "Tu és meu servo, Israel..."

    Nesse contexto o próprio Isaías esclarece anteriormente no capítulo 49:6: "Pouco é seres meu servo para restaurares as tribos de Jacó... também te darei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até os confins da terra". Assim, a salvação ou redenção tem como meio a nação, não um indivíduo.

    Os cristãos, via de regra, retiram de contexto as partes que lhes interessam, numa legítima manipulação. Se ampliarmos este contexto, vemos na própria história da formação do Novo Testamento, que a seleção de livros que o compõe é fruto de interesses bem humanos, principalmente na pessoa do imperador Constantino e sua sanha de se manter no poder sem oposição. Afinal, os judeus haviam, já naquela época, superado incontáveis ataques, sendo uma sombra constante ao poder monárquico. Além disso, com o fortalecimento dessa "nova" crença havia a necessidade de adequações.

    Os textos "sagrados" selecionados apontam para a sacralização da passividade. Na teologia apostólica é imposta a obediência diante do monarca, em total sujeição como uma instituição divina. Paulo é enfático e não dá margem para interpretações ao dizer, em Romanos 13:1–7, "Toda pessoa esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas".

    Vemos, nesses aspectos, que a fé deixa de ser a atuação de um povo para estar num indivíduo, o qual não é a força de reação política de uma nação para ser a aceitação da divinização de uma instituição na figura do imperador. A fé, bem cuidada e alimentada, vive sob interesses bem humanos. Nisso reside a total ausência de um Deus, sendo mera forma de dar autoridade à vontade dos homens.

    Por fim, eis o desafio de entender o porquê da fé ser depositada na manipulação de textos, na sacralização de outros, e a política por trás de tudo: o povo quer emoção, não conhecimento. Qualquer semelhança com o Brasil de hoje não é mera coincidência porque a roda do poder tem o mesmo DNA, seja lá em que época for.


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