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    ENSAIO SOBRE A GAVETA

    Quem se importa com uma gaveta até que precise dela?

    Gaveta lindamente decorada, suja, com puxador velho, a que tinha puxador.

    A gaveta recém chegada e a que emperra.

    A gaveta do armário, do balcão, do roupeiro e da cômoda.

    A gaveta do criado mudo e a que fala em silêncio.

    A pequena gaveta de tesouros e a enorme de panelas.

    Na gaveta, divisões e tudo misturado.

    Na gaveta escondemos e protegemos, organizamos e cobrimos a bagunça, preservamos e perdemos alguma coisa.

    Na gavetas ficam lembranças, emoções e segredos.


    Na gaveta ficam tristezas, alegrias e paixões.

    Na gaveta cabe aquela caixinha de miudezas, joias, pregos enferrujados, parafusos tortos e aquilo que um dia "se precisar, tem!".

    Na gaveta misturamos os separados e separamos misturados.

    Uma gaveta, muitas gavetas.

    Um móvel só de gavetas e gavetas atrás de portas.

    Peças íntimas e surradas, peças à espera de conserto e as que já deveriam ser descartadas.

    Os talheres, utensílios e temperos.

    O que limpa, lustra e raspa.

    Os sabonetes, as toalhas, as escovas.

    Os documentos, mistérios e planos.

    Os sonhos e pesadelos.

    As fotos dos amores, dos parentes e dos que não se sabem mais quem são.

    O carregador, as pilhas e lâmpadas.

    As taras, os fetiches, os consolos, os "brinquedinhos" e outras tantas vontades.

    O divino sagrado, os romances e aquele livro que não foi lido.

    A ideologia, a fé e a descrença.

    O ódio, a raiva e a esperança. O voto.

    O processo, a vitória, a derrota, a desilusão.

    Os carnês, a conta de luz, de água e o consórcio.

    Os planos que se foram e os planos que suspiram.

    A vida e a morte, a paz e a guerra, o passado e o futuro.

    Um brinde à gaveta!


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