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    A MENSAGEM DO PASTOR É DESTRUÍDA PELO TEXTO QUE ELE MESMO USOU

    Eventualmente acompanho minha esposa a um culto evangélico. Mesmo não gostando daquele circo, acabo por fazer alguns exercícios mentais e observo como usam os textos bíblicos. No último que fui o pastor usou o texto a seguir, de Lucas 5:

    ¹ Aconteceu que, ao apertá-lo a multidão para ouvir a palavra de Deus, estava ele junto ao lago de Genesaré;
    ² e viu dois barcos junto à praia do lago; mas os pescadores, havendo desembarcado, lavavam as redes.
    ³ Entrando em um dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da praia; e, assentando-se, ensinava do barco as multidões.
    ⁴ Quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar.
    ⁵ Respondeu-lhe Simão: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos, mas sob a tua palavra lançarei as redes.
    ⁶ Isto fazendo, apanharam grande quantidade de peixes; e rompiam-se-lhes as redes.
    ⁷ Então, fizeram sinais aos companheiros do outro barco, para que fossem ajudá-los. E foram e encheram ambos os barcos, a ponto de quase irem a pique.

    Na interpretação que o líder religioso fez, algumas me chamaram a atenção e sugiro observar os detalhes. O ato de entrar no barco é deixar Jesus entrar na vida. Ao lavarem as redes estavam agachados e Jesus acima. Portanto, é preciso olhar para cima. Lançar as redes novamente seria aprofundar-se. Aqui ele fez uma analogia com o "primeiro amor" mencionado no Apocalipse (aquele livro que ninguém entende, mas enchem a boda para falar). Ao apanharem grande quantidade de peixes Jesus fez o milagre que pode fazer nas nossas vidas multiplicando nosso sucesso aqui. Ao chamarem os outros com um barco dividiram a bênção. Essas são as aplicações do texto mais evidentes. De resto o malabarismo comum a quem busca captar pelas emoções, com música de fundo.

    Como não me interessam emoções, mas o respeito ao texto, vamos às minhas observações, dentre elas, algumas fi-lo pessoalmente ao pregador, o qual, percebendo que apontei para coisas que jamais pensou, deixou seu olhar cair no vazio. Quanto ao respeito ao texto, sou intransigente. Não tenho na Bíblia a fonte que este povo tem, mas até quando li partes do Alcorão e do Vedas busquei o respeito porque só assim chega-se ao que o autor quis dizer. O mesmo respeito que tive ao ler A Biblia Satânica.

    Disse-lhe: ao usarem as redes tiveram que olhar para baixo e, ao chamarem os outros pescadores, não dividiram a bênção, pediram socorro. E o socorro veio do barco que Jesus não entrou.

    Note que fui literal. Deixei que o texto falasse. Não o interpretei à revelia do autor. Não busquei aplicações emocionadas. Enfim, tratei de respeita-lo, principalmente, porque o tenho como mera mitologia. E toda mitologia traz verdades bem humanas.

    Usando da liberdade que o pastor usou, posso aplicar, tirar lições com base nesse mesmo texto. Redes significam que as ferramentas humanas colaboram com as espirituais. Exatamente como a tradução e impressão fazem com a Bíblia. Sem essas ferramentas a mensagem do Deus cristão ficaria presa ao grego e hebraico antigos e inacessíveis. Não há nesse livro: "traduzam-no em todos os idiomas". A iniciativa é humana. O barco que não recebeu a presença de Jesus, exemplificando os incrédulos, poderia ser entendido como as pessoas que, mesmo sem crer nesse Deus, relacionam-se com a fé pela disposição de ser uteis e usufruírem dos resultados. De quem constrói templos sem frequentá-los, aos que têm empresa e pagam salário justo aos "servos do Senhor", os quais farão doações à igreja. Do rádio à TV, das gráficas à internet, incrédulos e crentes em outros deuses contribuem, conscientes ou não, por mera obtenção de dinheiro ou educação básica da vida em sociedade. O milagre da pesca maravilhosa teria submergido sem o barco "vazio de Deus".

    Porém, há algo pior que o mal uso de um texto em suas partes, disfarçado de mensagem do Espírito Santo: O CONTEXTO. O pastor não leu o texto completo. Ao final da narrativa diz "¹⁰ …Disse Jesus a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens. ¹¹ E, arrastando eles os barcos sobre a praia, deixando tudo, o seguiram".

    Aqui o que poucos querem: abandonar o barco, o mesmo que Jesus entrou, para "pescar homens". Meus caros, as igrejas têm servido de ajuntamento dos que querem se servir da fé, não para servi-la. Por que o líder não leu esta parte? Porque não poderia aplica-la, não poderia dizer aos presentes "abandonem tudo", abandonem suas casa, seus carros e, principalmente, ABANDONEM SUAS CARREIRAS. Desapeguem desta vida em nome da vindoura. Não, isso seria demais. Ninguém quer ouvir isso! Quem quer deixar as delícias materiais em nome da abnegação de uma missão? Hummmm... uma bela casa, com belas roupas, um belo carro, um belo celular e, até, belas viagens de férias, não são coisas a serem desprezadas. CONVENIENTE, NÃO?!

    Por fim, devo dizer, que não os trato como hipócritas, como Jesus faria se estivesse por aqui. Pra Jesus seriam os sepulcros caiados modernos. Como não sou um Jesus, vejo-os como humanos perdidos em fantasias. São exatamente como aborígenes vendo o divino na beleza do horizonte, sem verem a miséria em que vivem. O barco que recebe Jesus é abandonado algumas frases depois... É tão consolador, quanto vazio!

    Ah, o que foi feito com tantos peixes? Isso não interessa porque não foi a bênção! A bênção é largar tudo e dedicar-se à divulgação da fé no Messias!

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